MADRID – Nem a elegância de Roger Federer, nem os recordes de Novak Djokovic, nem a capacidade de superação de Rafael Nadal: para Ion Tiriac, o maior tenista de todos os tempos é um jogador que subiu do nada, um jogador que não tinha talento para a raquete, um jogador que chegou ao Olimpo única e exclusivamente graças a um trabalho estajanovista. Esse homem, para Tiriac, é o argentino Guillermo Vilas.
“Para mim, Vilas é o maior jogador de todos os tempos porque não tinha talento, tinha zero talento”, disse Tiriac, empresário e treinador de Vilas durante muitos anos, em uma entrevista com Feliciano López em seu podcast Feli’s Room. O argumento de Tiriac, que à primeira vista poderia parecer uma ofensa a Vilas, é na verdade o maior elogio que o magnata romeno já dedicou a um de seus pupilos.
Para Tiriac, que completará 87 anos no próximo dia 9 de maio, Vilas representa a vitória da vontade sobre a genética. O argentino não nasceu com o talento no sangue nem com a facilidade natural de outros contemporâneos, mas construiu sua lenda com base no esforço.
“Vilas treinava oito horas por dia. Todos os dias fazia oito horas de treino. Tiro o chapéu para ele. É um cara sensacional, é um cara incrível sob todos os pontos de vista”, acrescentou Tiriac durante sua conversa com Feliciano López, atual codiretor do Masters 1000 de Madri.
Surpreso com a afirmação de Tiriac sobre o talento de Vilas, López perguntou-lhe então como foi possível que o argentino se tornasse um dos maiores tenistas de todos os tempos. “Ele tinha que ter alguma coisa”, insistiu o ex-tenista espanhol a Tiriac.
“Ele tinha a capacidade de trabalho, a vontade, o coração e também a cabeça. Você pode compará-lo com Thomas Muster, outro grande trabalhador”, respondeu o romeno, lembrando ainda que nenhum dos jogadores que treinou ou dirigiu se sacrificou como Vilas. “Em toda a minha vida, e eu fui treinador ou empresário de Nastase, Vilas, Becker, Ivanisevic, Leconte, Safin…”
Vilas, de 73 anos, é o melhor tenista latino-americano de todos os tempos. Segundo as estatísticas da ATP, ele conquistou 62 títulos, entre eles quatro Grand Slams: Roland Garros e o US Open em 1977 e o Aberto da Austrália por duas vezes, em 1978 e 1979. Sua melhor colocação no ranking mundial foi o segundo lugar, embora o argentino venha lutando há anos para que seja reconhecido como número um durante várias semanas de 1975 e 1976, durante o reinado de Jimmy Connors. “Cada dia que passa sem que isso seja corrigido é uma injustiça ainda maior, especialmente considerando seu estado de saúde. O tênis deve muito a Vilas”, destacou recentemente à CLAY o lendário Mats Wilander.
“Becker se movia como minha avó, mas eu o coloquei para jogar com Vilas e ele o devorou”
Tiriac também falou em sua conversa com Feliciano López sobre como descobriu Boris Becker. O romeno lembrou que era no início dos anos 80 quando um amigo seu lhe falou de um tenista alemão muito jovem. “Eu não estava interessado. Já fazia 11 anos que eu estava com o Vilas e estava cansado. Não era fácil, com o Vilas, ter que procurar todos os dias vários jogadores para treinar com ele. Eu não queria mais. Mas então vi o Becker”, explicou.
“Ele tinha 13 ou 14 anos e se movia como minha avó. Tinha pernas grossas, não sabia correr, mas tinha sangue nos joelhos, sangue no cotovelo… se jogava para qualquer lugar. Esse garoto é normal?”, perguntou-se Tiriac naquele momento. “Então eu o vi outro dia, e outro dia, e ele batia na bola de forma impressionante. Treinar as pernas é fácil porque é algo que se trabalha, então coloquei ele com o Vilas por um mês e o Becker se dedicou de corpo e alma. Horas, horas e horas até quase quebrar o ombro, o cotovelo… Ele não estava chorando, mas quase. Ele se dedicou de corpo e alma.”






