Se você ganha a vida batendo uma bola amarela pelo mundo com uma raquete, Eva Lys não está interessada em sair com você.
“Namorar um tenista? Não. Porque sei o que esse negócio exige. Consome demais a sua vida. Tento manter minha vida privada o mais longe possível do esporte”, disse à CLAY a alemã de 24 anos em entrevista em Melbourne, durante o Australian Open de 2026.
Lys cativa seus seguidores ao compartilhar no Instagram sua paixão pela moda, o tempo com amigos e sua presença em festivais de música. Mas essa mesma exposição também a transforma em alvo fácil de críticas quando os resultados não aparecem.
“Mostro o quanto aproveito minha vida… Muita gente se incomoda em ver mulheres se divertindo. Eu só digo: ‘Que se dane quem odeia!’ Se eu puder ajudar ao menos uma pessoa a ser ela mesma e não se importar com o ódio, serei a pessoa mais feliz do mundo”, afirmou à CLAY a número 72 do ranking.
Autêntica, aberta e direta, Lys acredita que se deveria falar muito mais sobre a homossexualidade no tênis masculino, diz que ouviria propostas do OnlyFans — como já fizeram alguns jogadores — e reflete sobre a forma como lida com a saúde mental, que não passou por seu melhor momento no ano passado.
“Você precisa ser muito forte mentalmente para chegar ao topo”, afirmou a jogadora nascida na Ucrânia.
Entrevista com Eva Lys
– Você sente falta de casa quando está viajando?
– Sim. Costumo chegar cedo aos torneios porque preciso de mais tempo para que meu corpo se adapte ao clima e a tudo isso. Então, quando perco, só quero voltar para casa. Exceto quando estou em Melbourne ou Nova York. Fico feliz sempre que posso ver minha família em Hamburgo.

– Esta entrevista não será sobre tênis. Não vamos falar da sua direita nem de ajustes no seu backhand.
– Gosto disso, adoro conversar. Muitos jornalistas têm personalidades interessantes e poderiam levar as entrevistas para caminhos muito mais atrativos, mas acabam perguntando só sobre tênis, que é o nosso trabalho. Acho que muitas conversas poderiam explorar outras coisas: quem é o jogador, como ele é fora da quadra. Porque muita gente nem sabe como é um tenista na vida real.
– Gostamos de conhecer os personagens em profundidade.
– É isso que os fãs gostam. No fim das contas, você vê alguém na televisão e se conecta não só pelo que faz no esporte, mas por quem é. Talvez compartilhe interesses ou traços de personalidade. Eu gosto de pessoas divertidas. Se você não sabe como um jogador é fora da quadra, é difícil criar conexão e formar uma base de fãs. Tento sempre transmitir isso dentro da WTA.
– Antes do Australian Open, você viveu um momento especial: estilosa, de óculos chamativos, posando ao lado de Grigor Dimitrov e Novak Djokovic em um evento de patrocinador.
– Foi bonito. Novak e Grigor têm grandes personalidades. Estou muito feliz de trabalhar com a Lacoste. Foi um grande passo na minha carreira, minha primeira ativação com eles. E o look era incrível. Viu os sapatos? Sensacionais! Disse aos designers: “Se vão arriscar comigo, arrisquem de verdade”. Sinto que isso ainda falta no tênis. Coco (Gauff) faz isso, Naomi (Osaka) também, mas há muitas outras que poderiam fazer.
– Você sonha em se tornar um ícone de moda no tênis?
– É uma forma forte de dizer. Não gosto de falar assim de mim. Para dar o próximo passo fora da quadra, preciso render dentro dela — esse é o objetivo. Mas sinto que agora posso expressar algo que sempre quis, especialmente com a moda e minha personalidade.
– Você falou sobre romper estigmas em torno das atletas. Pode explicar melhor?
– Tem a ver com como crescemos. Ensinaram que você precisa jogar bem para merecer se divertir. Se ganha, pode sair; se perde, tem que voltar a trabalhar. Mas não é assim. Instagram não é a vida inteira — você mostra o que quer. E eu mostro o quanto aproveito.
– E isso a torna um alvo fácil.
– Muita gente gosta do meu estilo, mas isso também me deixa exposta quando não jogo bem. As pessoas não veem que treino sete horas por dia. Não veem 20 anos de trabalho. E quando você perde, dizem: “Foque no tênis, pare de postar, pare de sair”. As pessoas julgam muito. E a maioria das críticas não vem de atletas, nem de mulheres — vem de homens. Se você é mulher e se diverte fora do trabalho, o estigma ainda é maior. Quero quebrar isso. Faço o que me faz feliz.
– O que a torna diferente em um circuito tão estruturado?
– Tento ser eu mesma. Sempre foi diferente por causa da minha saúde, do meu corpo. Queria ser mais forte fisicamente, mas a artrite sempre atrapalhou. Precisei encontrar equilíbrio. Preciso de algo fora do tênis para manter a sanidade. Todos têm dificuldades. Para mim, é a artrite. Para outros, será outra coisa. O mais importante é a alegria. Se não aproveito, não jogo bem.
– Quanto as jogadoras saem para festas?
– Algumas saem. Não é algo de que se fale muito. Outras são totalmente focadas no tênis. Está tudo bem. Algumas saem para jantar, talvez dançar. Eu gosto de jantar fora, mas não sou muito de festa. No tênis, você precisa de disciplina.
– Como lida com a atenção que recebe?
– (Risos) Tenho sorte de ter uma boa equipe. Não penso muito nisso. Minha família me mantém com os pés no chão. Quando volto para casa, sou a mesma Eva. Quero mostrar às meninas que podem se vestir como quiserem. As mulheres recebem críticas por tudo. E muita gente não gosta de vê-las se divertindo. Eu só digo: “Que se dane!”.
– Muitos tenistas te mandam mensagens privadas?
– (Risos) Prefiro não responder.
– Você sairia com um tenista?
– Não.
– Por quê?
– Porque sei o que esse estilo de vida exige. Consome demais. Prefiro manter minha vida privada separada do esporte. É bom ter amigos e interesses fora do tênis.
– Cada vez mais jogadores estão no OnlyFans. Você já recebeu alguma proposta?
– (Risos) Teriam que perguntar à minha equipe. Não que eu saiba.
– Você faria algo assim?
– Gosto de ouvir propostas. Por enquanto, estou feliz com minhas parcerias.

Eva Lys en Melbourne durante el evento de una de sus marcas auspiciadoras / LACOSTE
– Está recebendo mais ofertas de patrocínio?
– Não diria muitas, mas sinto que as pessoas começam a prestar atenção. Isso me deixa feliz. Quero viver do tênis e do que o rodeia.
– O que pensa sobre a homossexualidade no tênis masculino ter sido tabu por tanto tempo?
– Um jogador suíço falou recentemente sobre isso (Mika Brunold). É um tema pouco abordado no masculino. Fico feliz de ver jogadores mais à vontade para falar. É algo importante e corajoso.
– O circuito permite que os jogadores sejam eles mesmos?
– Os tenistas se identificam muito com os resultados. Ganhamos se vencemos. Se perdemos, não ganhamos nada. Isso afeta confiança e saúde mental. Por isso é fundamental ter um bom time ao redor.
– Você cuida da sua saúde mental?
– Está melhorando. O esporte é cada vez mais físico, mas o mental decide muito. Faço terapia. No ano passado, tive momentos difíceis. A pressão é enorme. Tenho muito respeito por quem está no top 10 ou top 20. É preciso ser muito forte mentalmente.





