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O álbum de figurinhas da ATP que o mundo esqueceu: do maior fracasso da Panini a tesouro de colecionador

Panini
The cover of the 1994 Panini "Tennis" sticker album
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Um inverno na América do Norte nunca é fácil, mas para dois irmãos que haviam acabado de se mudar de Kiryat Motzkin, em Israel, para o Canadá em 1994, um álbum de figurinhas de tênis trouxe um raro sopro de calor. A coleção, criada para promover o esporte mas um fracasso comercial retumbante, ressurgiu recentemente quando visitei o sótão da casa dos meus pais. Ela trouxe de volta uma enxurrada de memórias e me lançou numa busca para desvendar sua história — e, em particular, para encontrar minha figurinha de Boris Becker.

A onda de frio que varreu a América do Norte em janeiro de 1994 permanece como uma das mais severas já registradas. Correntes de ar ártico mergulharam inusitadamente para o sul naquele ano, fazendo as temperaturas despencarem para gélidos -30 graus Celsius em muitas cidades da Costa Leste. O transporte parou e os voos foram cancelados. Os Estados Unidos viveram o inverno mais frio desde 1934.

O relato a seguir é uma memória que ainda me arrepia, três décadas depois. Estava frio. Verdadeiramente frio. De fato, dizer que estava frio é um pouco como dizer que uma Ferrari é um carro rápido. Era horrível. Toronto registrou -31 graus Celsius naquele mês, e o ar que nos cortava os pulmões vinha acompanhado de neve intensa. Pela primeira vez em 60 anos, o aeroporto foi fechado.

Poucos meses antes, quando meus pais anunciaram que nos mudaríamos para o Canadá, a notícia pareceu uma loteria premiada. No calor sufocante do verão de Haifa, a perspectiva de ir para um novo país soava como um sonho, especialmente porque um país vizinho sediaria a Copa do Mundo naquele verão. Em setembro de 1993, logo após chegarmos, veio a notícia de que Toronto voltaria à NBA depois de quase cinquenta anos. O Toronto Raptors foi lançado meio ano depois. Não poderíamos ter pedido uma recepção melhor.

Sitckers from the Panini Tennis album
Michael Stich, Andre Agassi, Stefan Edberg, Boris Becker, Yannick Noah, Goran Ivanisevic, Pete Sampras, Ivan Lendl and John McEnroe / LASTSTICKER.COM

Em busca de uma infância perdida

Logo ficou claro que aquilo não era Kiryat Motzkin. A solidão de uma cidade grande e estrangeira, somada às dificuldades de adaptação, era exaustiva. Num lugar onde o hóquei no gelo é o esporte nacional e o futebol é visto como coisa de menina, você sempre se sente um estranho. Apesar de todos os esforços, a batalha estava perdida: nossos colegas de classe não tinham o menor interesse no nosso obscuro álbum de tênis — estavam obcecados em colecionar cards da NBA. Ficamos sozinhos, perseguindo o sonho impossível de completar o álbum.

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Um dia, no caminho de volta da escola, encontramos num armazém local um álbum de figurinhas de tênis com Boris Becker e Stefan Edberg na capa. Finalmente, algo familiar e acolhedor. Colecionar cards e figurinhas era um passatempo que conhecíamos de casa, e quando descobrimos que o álbum de 240 figurinhas incluía também imagens dos israelenses Amos Mansdorf e Gilad Bloom, nos tornamos obcecados com a missão.

O gigante italiano de figurinhas Panini, agora em sua sétima década, produz os álbuns oficiais da Copa do Mundo, da Liga dos Campeões e muito mais. No início dos anos 1990, por um breve momento, a empresa decidiu firmar parceria com a ATP e apostar num álbum de figurinhas inteiramente dedicado ao tênis. “O tour mundial estava tentando promover a popularidade do esporte de diversas formas, e uma delas era produzir algo parecido com os cards de beisebol”, conta Amos Mansdorf à CLAY. “Acho que não pegou.”

Do fracasso comercial a uma indústria bilionária

Gianni Bellini, 61 anos, de Módena, é provavelmente um dos maiores colecionadores de Panini do mundo. Especializado em figurinhas de futebol, tem uma coleção de mais de 4.000 álbuns e 2,5 milhões de figurinhas. Ele se lembra bem do esquecido álbum de tênis. “Foi verdadeiramente um dos maiores fracassos da empresa”, recorda Bellini à CLAY. “O álbum foi distribuído inicialmente em um número limitado de países da Europa como teste, mas simplesmente não funcionou. As pessoas não compravam. Acho que o trauma em torno da aventura no tênis foi tão grande que a empresa não produziu mais nenhum álbum de ídolos do tênis desde então. É uma pena, porque era um álbum lindo.”

Segundo Bellini, o álbum se tornou particularmente raro nos últimos anos, e muitos colecionadores o procuram. “O preço de uma figurinha rara de Pete Sampras, por exemplo, pode chegar a centenas de dólares.” Gilad Bloom lembra com um sorriso: “Era emocionante e legal que tivessem feito cards com minha foto — uma espécie de chancela de que você é um jogador legítimo e faz parte do tour. Foi definitivamente um impulso para o ego.”

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Gilad Bloom
Gilad Bloom

Alguns meses atrás, enquanto arrumávamos a casa dos meus pais, encontramos aquele mesmo e velho álbum de tênis. Ao folheá-lo novamente, descobrimos que a missão de completar a coleção jamais havia sido concluída. Algumas figurinhas ainda estavam faltando — entre elas Shuzo Matsuoka, Kelly Evernden, Fabrice Santoro, Brad Gilbert e Gilad Bloom. “O álbum acabou chegando ao Canadá por acidente, depois de ter fracassado tão feio na Europa”, diz o jornalista esportivo Christopher Clarey, que passou décadas cobrindo o esporte para o New York Times.

Hoje, porém, o mercado de cards de tênis parece viver um momento alto. Ed McGrogan, do Tennis Channel, diz que o mercado “está passando por um momento especial”. J.T. Buzanga, curador de coleções do International Tennis Hall of Fame, ressalta que o museu guarda cards históricos que remontam ao final do século XIX. Embora o valor exato dos cards históricos seja desconhecido, cards modernos de jogadores famosos estão sendo vendidos por valores astronômicos. Um card raro de Serena Williams foi leiloado recentemente por mais de 260.000 dólares, e um card de Carlos Alcaraz, que tomou o mundo do tênis de assalto, foi vendido por 222.000 dólares.

Esses números, somados à venda astronômica de um card raro de Michael Jordan e Kobe Bryant por 12,9 milhões de dólares, provam que um simples passatempo de infância — colecionar papelões coloridos — se transformou numa indústria multibilionária, com um mercado especulativo e jogadores sofisticados. Algumas das figurinhas que faltavam no nosso álbum foram encontradas no eBay e em outros sites de colecionismo, mas ainda assim, se alguém por aí tiver aquela figurinha de Boris Becker em Wimbledon — por favor, entre em contato. A busca continua. Pela figurinha, e por um pedaço da minha infância.

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