Existe um abismo entre voltar a competir e estar preparado para vencer um Grand Slam. Ou pelo menos devia existir. Porque há jogadores, como Carlos Alcaraz, que se obstinam em virar as costas ao que seria sensato. O espanhol está a demonstrar no US Open que está pronto para absolutamente tudo, que quer o troféu e que o seu corpo está preparado para o nível máximo.
A vitória deste domingo sobre Tommy Paul nos oitavos de final (6-4, 6-3 e 6-4 em duas horas e 21 minutos) foi uma verdadeira declaração de intenções. Elevou o nível e deixou claro que a lesão no pulso já faz parte do passado. Se há poucos dias até o próprio duvidava de conseguir alcançar as rondas decisivas, custa agora imaginar um candidato melhor visto o que apresentou diante de Paul.
O norte-americano representava o primeiro teste de fogo para Alcaraz na Grande Maçã, após três primeiras rondas relativamente tranquilas. Contra Paul, número 21 do ranking ATP, era necessário dar um passo em frente. E que passo deu.
“Tentei jogar com o meu estilo. O Tommy tem muito talento e é muito difícil controlar a bola dele quando vem disparada. Eu queria estar preparado para a batalha, para correr. Queria ser agressivo do princípio ao fim e acho que o fiz muito bem. Estou muito feliz com o meu ténis de hoje”, afirmou o número três do mundo na entrevista no campo da Arthur Ashe.
“Joguei uma partida muito completa, do início ao fim, e demos pouquíssimas opções ao Tommy. Eu sabia e tinha a confiança de que podia jogar a este nível. A única coisa que me passa um pouco pela cabeça é a parte física, porque depois de quatro meses não sabes como vais responder. E nós, que levamos tudo ao limite, sabemos que um gesto em falso pode mudar tudo. É a única coisa a que estamos a dar atenção”, acrescentou Alcaraz numa entrevista à Movistar+.
Campeão em Nova Iorque em 2022 e 2025, Alcaraz chegou aos quartos de final — onde medirá forças com o vencedor do duelo entre Ben Shelton e Stefanos Tsitsipas — cedendo apenas um set pelo caminho e com a sensação de que ainda tem mais mudanças para engatar. E é provavelmente isso o mais impressionante de tudo.
Precisa de jogos, com certeza. Precisa de minutos, de situações de pressão, de momentos em que o corpo tenha de responder após quatro meses sem competir. Mas o que surpreende é que o nível necessário para conquistar um Grand Slam já lá está. E isso, após quatro meses parado devido a uma lesão no pulso direito, é dizer muito.
Normalmente, quando um jogador passa tanto tempo sem competir, precisa de uma margem para voltar a engrenar. Há quem demore meses a recuperar a sua melhor versão; outros precisam de semanas. Alcaraz precisou apenas de um punhado de dias.
A aceleração está de volta. A potência também. A direita volta a sair da sua raquete com violência e precisão. E, acima de tudo, Alcaraz está a bater na bola sem qualquer um dos receios que seriam perfeitamente normais após uma lesão no pulso. Esse é, talvez, o melhor barómetro de todos.





