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A sombra das apostas no tênis: “É muito fácil tentar quem está passando por dificuldades” — entrevista com Horacio De La Peña

Horacio De La Peña
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SANTIAGO, Chile — O mundo das apostas coloca o tênis em uma situação delicada e deixa jogadores de ranking baixo em posição de vulnerabilidade. O ex-tenista Horacio De La Peña se coloca no lugar daqueles atletas que são tentados com grandes somas de dinheiro em troca de perder de propósito.

“Um jogador que vê que não está vencendo partidas, e então alguém aparece e oferece muito dinheiro. É muito difícil de controlar e muito difícil de julgar”, disse De La Peña — idealizador e motor por trás de vários torneios do circuito Challenger na América do Sul — em entrevista à CLAY.

“Os primeiros anos no tênis são muito difíceis. Tudo é caro e é muito fácil tentar jogadores que estão passando por dificuldades. Fico muito triste, sou completamente contra isso, mas penso na realidade de um jovem que não consegue viajar para os torneios, que não consegue comprar uma raquete. Não desejaria isso a ninguém”, explicou o ex-número 31 do mundo e tetracampeão de títulos ATP.

O argentino naturalizado chileno destaca a intensidade com que o tênis é vivido no sul do continente: “Independentemente do que digam, fazemos coisas bem-sucedidas aqui. Seja o número 5 ou o número 50 do mundo, as arquibancadas ficam cheias.”

Entrevista com Horacio De La Peña

— Este ano, no Rosario Challenger 125, na Argentina, dois jogadores relataram ameaças antes de suas partidas. O incidente voltou a iluminar um problema cada vez mais recorrente. Como os protocolos de segurança devem ser gerenciados para prevenir esse tipo de situação?

— Temos plena consciência de que essas coisas podem acontecer. Dentro da minha equipe, estamos sempre circulando pelo clube, e sempre que vemos algo incomum comunicamos ao supervisor. Imagine — se um jogador vem até nós e diz “olha, aconteceu algo”, avisamos as pessoas responsáveis imediatamente.

Horacio de la Peña
Horacio De La Peña, founder and director of the Legión Sudamericana Tour.

— Essas ameaças e tentativas de intimidação muitas vezes chegam diretamente ao celular dos jogadores. Houve até ameaças diretas no hotel.

— Felizmente, não tivemos nenhum caso no nosso circuito. E nas vezes em que notamos algo incomum — “ei, olha, aquela pessoa está ali fazendo ligações” — reportamos e o assunto é resolvido imediatamente. Mas esse tipo de ameaça por telefone é muito difícil de rastrear.

— Como você avalia o impacto do mundo das apostas no tênis?

— Muito grande, e muito negativo. Nos afeta diretamente porque o tênis é o segundo esporte mais apostado do mundo. Existe uma realidade aqui: os primeiros anos no tênis são muito difíceis. Tudo é caro, o horizonte pode parecer muito sombrio, e é muito fácil tentar jogadores que estão passando por dificuldades. Então um jogador que vê que não está vencendo — aparece alguém e oferece muito dinheiro. É muito difícil de controlar e muito difícil de julgar. Fico muito triste, sou completamente contra isso, mas penso na realidade de um jovem que não consegue vencer partidas, não consegue chegar aos torneios, não consegue viajar, não consegue comprar uma raquete. É duro. É uma realidade que não se desejaria a ninguém.

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— Deveria haver também algum tipo de estrutura de apoio profissional para ajudar os jogadores nessas situações.

— Na nossa organização conversamos muito com os jogadores. Se há algo que nos define, é que somos como uma família. Os jogadores chegam e se sentem acolhidos. Cuidamos de tudo — que estejam confortáveis, que estejam bem, que se tiverem um problema possamos ajudá-los a resolver.

— Em que medida o novo Masters 1000 na Arábia Saudita vai afetar o tênis na América Latina?

— A temporada de saibro na América do Sul corre em sentido contrário à da Europa e dos Estados Unidos. Essa é a realidade, e não adianta lutar contra ela. Porém, realizamos torneios genuinamente bem-sucedidos na América do Sul. Independentemente do que digam. Veja os eventos ATP na Argentina, no Rio e em Santiago — todos são um sucesso. Isso é a verdade. Seja o número 5 ou o número 30 do mundo, cada torneio esgota os ingressos. E são eventos espetaculares.

— E nos torneios Challenger que você organiza — é a mesma coisa?

— Sim. No nosso último torneio, quatro dos sete dias tiveram ingressos esgotados.

 

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— Isso diz algo sobre como o tênis é vivido na América do Sul em comparação com outras partes do mundo?

— Nos três países que sediam eventos ATP na América do Sul, o tênis é muito importante. Mas não é só isso — eu estava dizendo que no nível Challenger tivemos arquibancadas cheias por vários dias, e isso não acontece na Europa. Nos Estados Unidos, nem pensar. Para os Estados Unidos, um torneio Challenger é um fardo; para nós, na América do Sul, é um evento de grande porte. É importante trabalhar na forma como você o vende, como lhe dá relevância.

— O que você espera do confronto Chile x Espanha na Copa Davis?

— Vejo como um duelo muito interessante. Acho que, pelas datas e pela lesão, Alcaraz não vai conseguir jogar. Davidovich Fokina vai ter muita dificuldade como cabeça de chave. Surgiram dois jovens com potencial enorme — Rafael Jódar e Martín Landaluce — e o restante dos jogadores espanhóis está num nível similar ao dos chilenos. O Chile vai precisar aproveitar ao máximo o fator casa. É genuinamente muito difícil para qualquer equipe vir competir no Chile esperando sair com a vitória.

— Quem é o favorito?

— O Chile, pelo fator casa. Se eu tivesse que apostar em alguém, diria que o Chile vence.

— Cruzando os Andes, a derrota da Argentina na Coreia do Sul com um time alternativo gerou muito debate.

— Este é o terceiro ano consecutivo em que a Argentina tem um sorteio ruim. Estão jogando a Copa Davis longe de casa, fora, bem no meio dos únicos três torneios ATP de saibro na América do Sul. Isso dificulta muito o comprometimento dos melhores jogadores com a seleção. No ano passado conseguiram vencer, e este ano a Argentina teve o azar de perder.

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— Vários jogadores optam por priorizar a carreira individual em detrimento da seleção.

— Não, não é que priorizem uma coisa em detrimento da outra. A realidade é que infelizmente tiveram três anos consecutivos com um sorteio muito desfavorável, tendo que jogar em ambientes fechados, em quadras duras, fora de casa. É simplesmente o que lhes tocou enfrentar. É uma pena. Posso falar mais de perto sobre o que aconteceu com Tomás Etcheverry — no ano passado, quando eu o treinava, fomos à Noruega e ele voltou destruído. Quando chegou a temporada de saibro, estava esgotado pelas mudanças de clima, de bola, de tudo. O desgaste é enorme. A Argentina tem tido muito azar nos sorteios recentes.

— O circuito Legión Sudamericana completa agora seis anos deixando uma marca significativa no Challenger Tour. Como você avalia essa trajetória? As metas estabelecidas em 2021 foram alcançadas?

— Jamais sonhamos com resultados como esses. Superamos qualquer sonho ou previsão que pudéssemos ter imaginado. Quando lançamos a Legión Sudamericana, queríamos melhorar as condições e as oportunidades para os tenistas sul-americanos. Hoje, praticamente todo jogador da região com um bom ranking começou sua carreira ou deu seu salto quando a Legión entrou em cena.

 

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— Quais jogadores são um exemplo desse impacto?

— De Sebastián Báez aos irmãos Cerúndolo, Alejandro Tabilo, Tomás Barrios, Facundo Díaz Acosta, o próprio Luciano Darderi — que hoje é semifinalista em Roma e está no top 20. Quando começamos, ele estava no ranking 300! Todos eles começaram ou melhoraram sua posição no ranking por meio do circuito. Báez estava no 320, assim como Francisco Cerúndolo. Os dois disputaram a primeira final de Challenger em Concepción, em 2021. Veja o que aconteceu com jogadores como Daniel Vallejo. Sendo do Paraguai, ele nunca teria tido a oportunidade de entrar no top 100. Esse jovem não parou de vencer torneios na América do Sul. Sem precisar percorrer o mundo, já está no top 80 e está a caminho de jogar Roland Garros.

— Sem um circuito como este, quão difícil é para um tenista sul-americano fora do top 200 sustentar uma carreira financeiramente?

— É genuinamente impossível esperar que façam longas viagens à Europa ou aos Estados Unidos. Só federações com recursos significativos, como a do Brasil, ou empresários que bancam jogadores financeiramente conseguem viabilizar isso. E isso é muito raro.

— Como alguém com profundo conhecimento do tênis emergente sul-americano, em quem devemos prestar atenção para o futuro?

— Acho que Vallejo, Juan Carlos Prado, João Fonseca e Ignacio Buse são jogadores que atuam em um nível muito alto. Mais do que promessas — apesar da idade — já são realidade. Vão formar um grupo muito forte.

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