BARCELONA – Cinco décadas se passaram, mas o espanhol Manuel Orantes não esquece como sua relação com o argentino Guillermo Vilas passou de uma forte amizade a um distanciamento absoluto e definitivo.
“Ele começou a me desvalorizar depois que eu o havia ajudado”, afirmou Orantes em entrevista à CLAY realizada em abril, em Barcelona. “Ele diz mentiras”, acrescentou o campeão do US Open de 1975 e vencedor do Masters Grand Prix de 1976.
Aos 77 anos, Orantes, ex-número dois do ranking ATP e vencedor de 34 títulos, sentou-se com a CLAY em uma mesa do restaurante do Club Bonasport de Barcelona e puxou pela memória para relembrar aqueles anos em que a relação com Vilas, canhoto como ele, ruiu por completo. Cinquenta anos após aqueles episódios, Orantes revela pela primeira vez detalhes inéditos de um rompimento que nunca foi superado.
Vilas, que completará 73 anos neste 17 de agosto, sofre de uma doença que o mantém recluso há anos em Monte Carlo, longe dos holofotes.
– Gostaria que me falasse sobre Guillermo Vilas. Você acha que a semifinal do US Open de 1975 contra o argentino foi a sua melhor partida? Perdia por 6-1, 6-4, 2-6, 5-0 e 40-0 e acabou virando…
– Não acho que tenha sido a minha melhor partida. Nas quartas de final, no jogo anterior, venci o Nastase (6-2, 6-4, 3-6 e 6-3). E aquele sim foi um jogo incrível, muito duro. E sobre o Vilas… Bom, é que naquele ano eu tinha tido uns problemas com ele e…
– Que problemas?
– Antes, em 74, tínhamos jogado duplas juntos, mas depois ele começou a me desvalorizar, logo quando eu o tinha ajudado. Em 1975, tínhamos jogado três partidas antes do US Open e eu tinha vencido todas sem perder um único set. Nos Estados Unidos eu não joguei tão bem, mas ganhei dele de novo. Lembro que eu estava com tanta raiva dele pelo que tinha me feito, por ter me desvalorizado… que quando fiquei perdendo por 5-0 e 40-0 no quarto set, disse a mim mesmo que iria lutar até o fim. E ganhei aquele set por 7-5 e depois o quinto por 6-4. Na coletiva de imprensa posterior em seu país, ele disse que tinha quebrado o corpo todo e por isso tinha perdido sete games seguidos. E eu pensei: ‘Por que você diz mentiras? Se você está quebrado no quarto set, não perde o quinto por 6-4, perde por 6-0.’ Aconteceu algo parecido comigo contra o Borg na final de Roland Garros de 1974. Eu tinha vencido todas as partidas anteriores contra ele e ganhei os dois primeiros sets (6-2 e 7-6) muito bem. Quase no final do segundo set, liderando por 4-1, comecei a sentir dores fortes nas costas. Consegui vencer o set no tiebreak, mas acabei perdendo por 6-0, 6-1 e 6-1 porque quase não conseguia me mexer. Continuei jogando para ver se passava, mas se você está mal, está mal…
– Vocês se entenderam depois com o Vilas?
– Não, porque sou uma pessoa que, se você se comporta mal comigo e me dá um chute… Quer que eu te conte o que aconteceu?
– Por favor.
– Em 74 joguei contra ele várias vezes e eu ainda era melhor do que ele. Jogamos algumas duplas juntos e começamos a jogar melhor. Quase no final do ano, jogamos um torneio na Suécia, depois havia um na Argentina, em Buenos Aires, e logo em seguida era o Masters, que nós dois jogaríamos na Austrália, na grama. A ideia era irmos juntos, porque tínhamos uma boa relação. Então perguntei ao Guillermo se eu podia ficar em Buenos Aires depois do torneio e viajar juntos para a Austrália. Ele me disse que na Argentina havia um clube excelente com quadras de grama onde nós dois poderíamos treinar. Combinamos de treinar juntos e viajar para a Austrália com um fisioterapeuta que nós dois conhecíamos. Chegamos à final de simples e de duplas em Buenos Aires e eu disse a ele: ‘Te espero no hotel, você me liga e vamos juntos.’ Mas ele não me ligou nem na segunda, nem na terça, nem na quarta, nem na quinta.
– Ele te deu alguma explicação?
– Disse que foi porque ele era tão famoso na Argentina que as pessoas não o deixavam em paz, que ele não podia sair na rua… Não pude treinar na grama naqueles dias, mas fiquei em Buenos Aires e no final voamos juntos para a Austrália. Quando chegamos, eu não tinha tocado em uma quadra de grama, mas mesmo assim eu ainda era melhor do que ele. Treinamos juntos naquela semana e foi tudo muito bem. Chega o torneio, ele joga maravilhosamente bem e ganha. E na coletiva de imprensa, nem uma única palavra sobre tudo o que tínhamos treinado juntos ou sobre o treinador. Falou do Borg, que ele era seu ídolo, mas sobre mim, nada. E ao treinador que nos ajudou, não deu nada. A partir daí passei a jogar contra ele com raiva e disse a mim mesmo: ‘Agora vou te mostrar quem eu sou.’
– Foi só isso?
– Ele diz mentiras. Contou outra mentira que não tem nada a ver com a realidade. Além disso, quando você considera alguém um amigo, são coisas que não se dizem.
– A que você se refere?
– Houve um ano em que estávamos muito parelhos no ranking e ele fez uma declaração dizendo: ‘Enganei o Orantes.’ Disse algo como: ‘Falei para o Orantes que no próximo torneio eu iria para casa descansar e não iria jogar. Ele acreditou e foi embora também. Mas eu fiquei, joguei e tirei os pontos dele.’ Isso é mentira. Além do mais, se sou seu amigo, você acha que tem que sair contando isso? Se estamos disputando o número dois e você quer descansar, faça o que quiser. Eu faço o que eu quiser. E em Roland Garros 1980 aconteceu outra coisa com o Vilas, embora aí a culpa não tenha sido totalmente dele…
– O que aconteceu?
– Eu jogava contra o Vilas nas oitavas de final e tínhamos a quarta partida do dia programada. Quando a terceira começou, fui para o vestiário e acompanhei pela TV. Quando estava para terminar, o juiz árbitro veio até mim e disse: ‘Manolo, parece que você já ganhou este jogo.’ Perguntei o que tinha acontecido e ele disse: ‘O Vilas está doente, com febre e não vem. Se em 15 ou 20 minutos não estiver pronto para jogar, perdeu o jogo.’ De fato, passaram-se 20 minutos, o juiz voltou e disse que eu tinha vencido a partida. Então fui para a academia treinar para o jogo seguinte.
Mas o presidente da Federação Internacional, Philippe Chatrier, veio à academia, me chamou e disse: ‘Manolo, vou te pedir um favor, porque você é um grande esportista e vai tentar me ajudar.’ Perguntei como poderia ajudar. Ele disse: ‘Acho que você deveria dar uma chance ao Vilas para jogarem a partida amanhã.’ Eu disse: ‘Escuta, estamos em Roland Garros. Você acha que isso pode ser feito? É uma regra pela qual muita gente já passou. Não pode haver exceção, é um torneio grandioso.’ Obviamente disse que não. Além do mais, não vou fazer um favor a alguém que não merece. Chatrier me disse: ‘Não, não, quem manda aqui sou eu, sou o presidente da ITF. Amanhã vou colocar o jogo, e se você não estiver lá, você perde.’ Eu me recusei terminantemente porque essas coisas não têm lógica. E ele colocou a partida no dia seguinte. Eu, claro, não fui, mas depois entrei com um processo judicial contra eles na França e eles levaram uma dura da justiça. Mas não pude jogar o torneio e perdi uma grande oportunidade. O Vilas avançou e jogou nas quartas contra o (Harold) Solomon, de quem eu sempre ganhava de lavada no saibro. O Solomon venceu aquele jogo porque o Vilas continuava doente. Claro—se você estava doente ontem, hoje continua doente. Acho que, por atitude esportiva, o Vilas deveria ter dito que não podia jogar, que prejudicar o Orantes não fazia sentido… Mas não fez.





