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Daniel Mérida, o tenista do povo: “Viajei sozinho por vários anos porque não podia pagar um treinador”

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MADRI — O caminho de Daniel Mérida nunca foi feito de tapete vermelho. As oportunidades sempre foram escassas, a carteira ficava no limite a cada viagem e seu nome jamais figurou nas listas de convites para os grandes torneios. Enquanto outros viajavam com equipes multidisciplinares, ele aprendeu a ser seu próprio agente de viagens: voos na madrugada, escalas intermináveis e conexões de ônibus para fazer as contas fecharem no fim do mês.

“Quando você conquista esses títulos, obviamente vê tudo com outros olhos; sabe que a viagem valeu a pena”, contou Mérida em entrevista à CLAY após se sagrar campeão do ATP 250 de Umag no domingo, o primeiro título ATP de sua carreira.

Às vésperas de completar 22 anos em setembro, o madrileno tem apenas alguns meses no grande circuito e sua ascensão está sendo meteórica. Após surpreender ao chegar à final de Bucareste vindo do qualifying, ele passou pelas fases de qualificação de Roland Garros e Wimbledon. Hoje, ocupa o posto 59 do ranking mundial, a melhor posição de sua vida. Em fevereiro, figurava no 183. Ele, no entanto, nunca duvidou.

Qual é a sensação de ser campeão de um título ATP?

– Estou feliz demais, é algo incrível. É outro nível. Eu já tinha ganhado torneios ITF e Challenger, mas este é outro tipo de torneio, outro tipo de título—honestamente, é algo incrível. Estou supercontente com o nível que apresentei esta semana e muito feliz por conquistar meu primeiro título ATP. É algo ao alcance de pouquíssimas pessoas no tênis e, para mim, é uma alegria extrema. Isso me motiva a continuar competindo e a buscar mais títulos.

Quais foram as emoções no momento em que fechou o match point?

– Eu estava muito tenso; foi uma sensação principalmente de libertação, de ‘Finalmente acabou’. Senti essa libertação e também uma alegria enorme, porque há muito trabalho para chegar até aqui. Acho que nos próximos dias e semanas, quando absorver tudo, vou valorizar um pouco mais. Até agora não deu tempo de olhar por outra perspectiva, mas a verdade é que estou supercontente. É algo incrível.

 

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Muitos tenistas falam sobre valorizar todo o trabalho dos bastidores. Você pode explicar para quem não acompanha o circuito de perto o que realmente envolve ser um tenista profissional?

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O tênis é um esporte muito duro porque, desde pequeno, você precisa viajar muito. Eu viajei sozinho por muito tempo. Joguei torneios Futures—que é o nível mais baixo do tênis—durante dois anos e fiz isso viajando sozinho. Às vezes minha namorada, Luana, ia comigo; às vezes, quando podia, meu pai me acompanhava. Mas eu não tinha condições de pagar um treinador e, no fim, é muito duro ter que ficar sozinho, viajar sozinho e perder toda semana. Mas quando você conquista esses títulos, obviamente vê tudo com outros olhos, sabe que valeu a pena. O caminho é extremamente duro, e eu trabalhei muito para chegar até aqui.

Também é um esporte em que é preciso se acostumar a perder. E muito.

– Sim, no fim das contas, o lado bom e o lado ruim do tênis é que toda semana há torneios. Amanhã já vou para o próximo e já é outra história. Por um lado é bom jogar toda semana, porque você tem a oportunidade de se dar a volta por cima. Mas também tem um lado amargo: quando você ganha, não tem muito tempo para comemorar.

Parte da torcida te deu o rótulo de “o tenista do povo” pela sua humildade e pelo caminho duro que percorreu. Você se sente confortável com essa etiqueta?

– No fim, tem muita gente no Twitter que fala bem e outros que criticam. Às vezes é melhor não prestar atenção nisso, mas sim, eu sempre tive que trabalhar muito; tive que conquistar as coisas por conta própria. Como disse antes, passei um ano e meio ou dois anos viajando sozinho, pesquisando voos, hotéis, buscando o mais barato para conseguir aguentar as semanas. Tive que trabalhar duro para chegar até aqui.

Como se comemora o primeiro título ATP?

– Amanhã vou tirar um dia de descanso com minha namorada, vamos almoçar fora, tentar não pensar muito em tênis—embora seja difícil—e depois voltar aos treinos para preparar o próximo torneio. O tênis é assim.

Este título muda a sua perspectiva para a temporada?

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– Não muda muito, principalmente no aspecto mental, porque eu sentia que tinha nível para conquistar este título, me via capaz de jogar nesse nível. Obviamente é um grande salto no ranking, traz confiança e, acima de tudo, a certeza de que posso vencer títulos ATP, mas é a única coisa que muda. Vou continuar trabalhando, melhorando e tentando levantar muitos outros troféus.

Você começou o ano como 163 do ranking. Agora está perto do Top 50. Imaginava uma jornada assim?

– Quando comecei o ano, acho que estava em 160 ou 170 do mundo, mas sabia que tinha nível para muito mais. Confiava em mim. Trabalhei muito duro na pré-temporada para chegar a esses torneios e competir no mais alto nível. Mas sim, o salto que dei desde janeiro não deixa de me surpreender.

O que você aprendeu nestes seis meses?

– Acima de tudo, o que levo é que estou aprendendo a competir em jogos a 100% durante muitos dias seguidos, que é o que te faz ganhar esse tipo de título—competir no seu melhor nível dia após dia. E isso é algo que venho fazendo muito bem durante várias semanas do ano, o que se reflete neste título e no ranking.

E quais são suas expectativas para a temporada de quadras rápidas?

– Vou tentar entrar para vencer, porque acredito que tenho nível para isso. Haverá jogos muito duros, mas vou dar 100% em cada partida, confiando em mim. E, acima de tudo, mantendo a humildade, continuando o trabalho e acreditando no processo.

Este ano Rafa Jódar também estreou como campeão ATP. Isso serve como uma motivação mútua?

– A verdade é que ele é um grande jogador, está fazendo uma temporada incrível e é ótimo ter outro espanhol lá no alto. Além disso, eu o conheço desde que éramos crianças em Madri, então ajuda muito tê-lo por perto. Para mim, é muito motivador ver o que ele conquista, os jogos que faz e como compete em um nível tão alto. Isso me empurra a querer alcançar as coisas nesse nível também.

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