Jaime Faria não consegue viver sem futebol. Ir ao estádio com os amigos para apoiar o Sporting Clube de Portugal é o que o ajuda a recarregar energias entre as exigências da vida no circuito.
“Com os meus amigos temos essa cultura: pré-jogo, jogo, pós-jogo. Muito bom. Imagina quando é o dérbi contra o Benfica. Vamos a pé ao estádio juntos. Isso dá-me tanta energia quando regresso a casa — desligar um pouco do ténis e estar com os amigos. É uma forma bonita de recarregar”, conta o tenista português, 79.º no ranking ATP, à CLAY.
Tem lugar cativo no Estádio José Alvalade, o clube onde o seu compatriota Cristiano Ronaldo se formou como jogador. Ainda assim, o jovem de 23 anos idolatra Lionel Messi: “Sou um enorme fã do Messi, por isso teria gostado que ele ganhasse mais uma Copa — mas se Portugal tivesse ganho teria enlouquecido.”
Entrevista com Jaime Faria*
— O ténis em Portugal é uma história ainda a ser escrita. Fazes parte de uma geração que dá esperança a um país sem grandes sucessos no desporto.
— A verdade é que, infelizmente, não temos a qualidade nem a história de outros países europeus ou sul-americanos — somos um país sem uma forte tradição tennística. Mas temos agora uma geração muito entusiasmante, com o Nuno Borges dentro do top 50, o Henrique Rocha é jovem e muito sólido também, teve bons resultados em alguns Challengers este ano. E eu entrei no top 100, e bem, os outros que vêm aí também — acreditamos que podemos fazer algo muito especial. Na Copa Davis não é fácil, mas tentamos ir mais longe. Sei que tenho um papel importante, talvez para os poucos que seguem o ténis em Portugal, para ser uma figura de destaque. Temos uma lenda do ténis português que se retirou recentemente, o João Sousa — a maior figura para nós — e ele ajuda-me muito, está frequentemente nos torneios. O meu treinador é o ex-jogador Pedro Sousa. O Rui Machado, que também jogou, está comigo também. Acho que ter essas pessoas na minha equipa faz toda a diferença quando se trata de alcançar resultados nos torneios maiores. Estou a trabalhar para ser mais consistente — joguei muitos Challengers e agora estou a entrar mais nos eventos ATP.
— Como vês o nível do circuito hoje? Os jogadores dizem que está cada vez mais difícil, que qualquer um pode bater qualquer um, e que o top 50 está muito equilibrado. Já jogaste contra jogadores do top 20? Como se compara o teu nível com o deles?
— Sinto-me um jogador muito melhor do que era quando entrei no ano passado. Depois lesionei o pulso, tive de parar dois meses, e quando voltei já não estava no top 100. Mas agora sinto-me um jogador muito melhor, com muito mais experiência. E uma coisa é certa: os níveis Challenger e ATP estão muito próximos, e tens de aproveitar ao máximo quando entras nos eventos ATP e somas pontos, porque não vejo assim tanta diferença. O top 20, o top 10 é outro patamar, mas tens de estar lá para competir com eles e elevar o teu nível. Às vezes não é tanto uma questão de ténis — é um pouco mais mental, manteres-te lá durante todo o jogo, aproveitando as pequenas oportunidades. Tudo se decide pelos detalhes.
— Achas que o lado mental é o que faz a diferença?
— Acho que sim. A linguagem corporal, como se parece do exterior — isso importa enormemente. Há alguns que estão noutro nível, mas sinto-me um jogador melhor a cada dia, aproveitando este momento a trabalhar com a minha equipa. Preciso de me estabelecer no top 100 e continuar a crescer a partir daí.
— Quais são os teus sonhos no ténis?
— Nunca fui alguém com grandes sonhos. Sempre disse que queria jogar Slams — consegui. Quando comecei a levar o ténis mais a sério, disse que queria estar no top 100 — também consegui. Agora diria ser muito feliz na Copa Davis, porque é algo que alcancei ao ganhar jogos. Representar Portugal é uma sensação incrível. Essas três coisas, e não mais. Agora é só desfrutar — tem sido uma viagem muito bonita, mas tens de continuar. Para coisas maiores talvez os sonhos mudem, mas os sonhos que tinha em criança, felizmente já os estou a ver tornar-se realidade.
— O que achaste do boicote que os melhores jogadores fizeram em Roland Garros e Wimbledon? Alguém te consultou?
— Não, ainda não estou a esse nível mediático para fazer parte de algo assim. Só direi que se me perguntarem, estou com eles, porque é preciso lutar por melhores condições para todos. Não tenho grande opinião porque não vieram ter comigo — não sei muito sobre isso.
— O que gostas de fazer fora do ténis?
— Sou um enorme fã de futebol. Muito mesmo. Com os meus amigos, sempre que estou em Portugal, vamos ver jogos. Tenho lugar cativo no Sporting Lisboa, tenho o meu lugar no estádio durante todo o ano. Estou obcecado. Durante o Mundial fui para a cama tarde porque estava a ver todos os jogos. Gosto imenso de futebol.
— Vês os jogos com a tua família, com os teus amigos.
— Sim, temos essa cultura: pré-jogo, jogo, pós-jogo. Muito bom. Imagina quando é o dérbi contra o Benfica. Vamos a pé ao estádio juntos. Isso dá-me tanta energia quando regresso a casa — desligar um pouco do ténis e estar com os amigos. É uma forma bonita de recarregar.
— Ficas entusiasmado com a selecção portuguesa?
— Imenso, sim. Sou um enorme fã do Messi, por isso teria gostado que ele ganhasse mais uma Copa — mas se Portugal tivesse ganho teria enlouquecido.
— Fantasiaste com uma final Portugal contra Argentina?
— Não, não! Portugal! Sempre Portugal. Embora se o Messi tivesse ganho, também estava bem (risos).
— Já conheceste o Cristiano Ronaldo?
— Não, o Cristiano está noutro nível. Tenho uma boa relação com o Francisco Trincão, que joga no Sporting. Às vezes trocamos algumas mensagens. É um óptimo rapaz e tem um talento fenomenal.
*Esta entrevista foi realizada em espanhol. O registo de fala de Faria não é o original em língua portuguesa.
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