NOVA YORK — Juan Martín Del Potro acredita que Guillermo Vilas, o maior jogador do tênis latino-americano, merece ser oficialmente reconhecido como ex-número 1 do mundo.
“Vilas deixou sua marca neste esporte — seria muito bonito e muito merecido que isso fosse reconhecido”, disse Del Potro, campeão do US Open 2009, em entrevista à CLAY e à CNN Chile em Nova York.
Apesar das evidências de que Vilas chegou ao topo do ranking em meados dos anos 1970, a ATP tem consistentemente rejeitado qualquer possibilidade de reconstruir o histórico e até agora negou essa honra ao tenista argentino mais bem-sucedido de todos os tempos.
Del Potro, ex-número 3 do mundo, chegou a Nova York na quarta-feira para estrear num novo papel: é o novo analista de tênis da ESPN. Seu primeiro dia de trabalho na emissora coincidiu com um dos dias mais intensos da memória recente do tênis: ficou na cabine de comentários até às 3h30 da manhã durante a vitória de Ben Shelton sobre Carlos Alcaraz, após já ter narrado a partida de cinco sets entre Tiafoe e Michelsen.


O campeão da Copa Davis 2016 também falou sobre as comparações entre suas conquistas e as do chileno Marcelo Ríos, e relembrou os momentos que viveu 17 anos atrás ao negar a Roger Federer seu sexto título consecutivo em Flushing Meadows.
Entrevista com Juan Martín Del Potro
— Você continua sendo o último campeão de Grand Slam não nascido na Europa. Dezessete anos de dominância europeia.
— É um recorde e tanto, não é? Uns 80 Grand Slams, acho — mas me parece que neste torneio essa estatística pode ser quebrada. Vamos ver se Shelton ou Tiafoe são capazes de vencer este Grand Slam. Acho que a oportunidade está ali para os quatro semifinalistas. Veremos quem levanta o troféu.
— Você venceu aqui jovem. Tinha 20 anos quando encerrou a sequência de Roger Federer, com cinco títulos consecutivos em Nova York antes daquela final. Qual é a memória que mais volta a você daquela noite histórica?
— Levantar o troféu, obviamente. Aquele momento é inesquecível. Lembro como se tivesse acontecido há poucos dias. Também lembro de chegar ao vestiário após vencer, com toda a minha equipe comemorando, e muito perto de mim estava a equipe de Roger — e o próprio Roger. E em vez de me deixar curtir sozinho, vieram todos, me abraçaram, ficaram genuinamente felizes por mim. Se algo ficou, eles me deram luz verde para celebrar este grande torneio.
— Sua carreira é frequentemente comparada à de Marcelo Ríos. Duas lendas do tênis latino-americano. Quem divide o pódio com Guillermo Vilas e Gustavo Kuerten?
— Podemos fazer um pódio de quatro, para ninguém brigar (risos). El Chino é um jogador incrivelmente talentoso — um daqueles que você realmente curtia ver jogar. Era canhoto, fazia coisas maravilhosas. Sempre lembramos quando se tornou número 1 do mundo ao vencer Miami, que na época era considerado o quinto Grand Slam. El Chino foi um dos grandes do tênis latino-americano.
— O que as pessoas lembram mais: o número 1 do mundo ou um título de Grand Slam?
— Não sei — você teria que perguntar aos fãs. Acho que ambos são memoráveis, ambos são conquistas que te colocam na história do esporte, na história do tênis. Alguns podem dizer uma coisa, outros outra — é muito pessoal. Sempre sonhei em vencer o US Open desde muito jovem, e é louco, mas o único Grand Slam que consegui ganhar é exatamente o US Open. Isso tem um valor imenso para mim.

— Três argentinos fizeram história no US Open na Era Aberta. Além de você, Gabriela Sabatini venceu em 1990 e Vilas em 1977. Há uma reivindicação histórica para que a ATP reconheça Vilas como ex-número 1 do mundo. O que você acha? Acredita que é justo?
— Para nós argentinos — e acho que para os latino-americanos e sul-americanos — Vilas foi o grande referencial. É ele quem deixou sua marca neste esporte, que inspirou todos os outros a começarem a jogar, que fez as pessoas se apaixonarem pelo tênis. Jogou numa era em que o esporte tinha um prestígio enorme, quando havia tantas estrelas. Acho que seria muito bonito e muito merecido que isso fosse reconhecido.
— Onde Juan Martín Del Potro se encaixaria na era atual? Estaria brigando com Jannik Sinner e Carlos Alcaraz por títulos de Grand Slam?
— Não sei — eles são muito jovens e têm um poder enorme. Acho que é melhor estar deste lado, comentando as partidas deles e curtindo o tênis deles, porque o que estou vendo é uma capacidade física impressionante. Naquele nível o corpo sofre enormemente. E bem, isso cobra seu preço — no final do dia, quando o tênis acaba, você tem dores que não são agradáveis. Então deixa eu ficar deste lado.





