LONDRES — Vencer aos 44 anos sem ter competido durante quatro temporadas ainda é algo impossível no tênis profissional. O retorno de Serena Williams foi uma viagem no tempo sem surpresas.
Vinte e quatro anos é uma diferença grande demais numa quadra de tênis. Os que Williams leva de vantagem sobre quem foi sua rival na noite de terça-feira em Londres: Maya Joint, uma jovem australiana nascida em 2006 que mal conseguia falar durante a entrevista pós-partida. Estava em choque após vencer a ex-número 1 do mundo.
“Não dormi ontem à noite, fiquei acordada até as duas da manhã pensando nisso. Ela tem uma aura impressionante, é uma lenda. Eu sonhei com isso desde que era criança. Foi incrível”, disse Joint, após superar Williams por 6-3, 6-7 (6-8) e 6-3. Quando ela nasceu, Williams já acumulava sete Grand Slams. Ganharia mais 16.

A norte-americana, em suas próprias palavras, “não tinha nada melhor para fazer” neste verão boreal. Suas filhas estavam de férias e não havia muitos planos. Então, por que não jogar Wimbledon?
Assim, convidada pelo torneio, Williams voltou à quadra onde levantou sete vezes o troféu mais lendário do esporte.
A frescura e a juventude de sua rival foram o que fez a diferença. Seu ex-fisioterapeuta Rubén Mateu, uma das pessoas que melhor conhece Williams, havia advertido à CLAY: “A realidade é que não consigo imaginá-la competindo num nível físico como quando competia antes de sua gravidez. Mas enfim, oxalá me surpreenda e oxalá conquiste sucessos. Mas eu, sinceramente, não consigo imaginá-la.”
Com Mateu em seu box, Serena Williams conquistou o último de seus 23 títulos de Grand Slam, o Aberto da Austrália 2017. Venceu, além disso, estando grávida de oito semanas, e o título lhe serviu para voltar ao número 1 com 35 anos.
“O corpo de Serena não é normal, porque ela é uma superatleta, mas também é o corpo de uma pessoa de 44 anos que há algum tempo não compete na elite”, analisou o espanhol.
Joint tinha a partida sob controle, com uma quebra de vantagem em grande parte do segundo set, mas graves erros da australiana — notoriamente fruto do nervosismo — deram vida à tenista mais vitoriosa da história do tênis profissional.
Williams levou o assunto a um terceiro set após salvar um match point no tie-break. Começou com uma quebra, mas no meio do set decisivo, o esgotamento da norte-americana ficou evidente demais.
Um retorno icônico a Wimbledon, um tributo merecido para quem é uma das maiores lendas do tênis. Foi isso: uma volta carregada de simbolismo, um presente para as novas gerações que puderam compartilhar com um ídolo, um presente para os fãs que a ovacionaram, e um presente para Williams, que pôde realizar seu desejo de jogar diante de suas filhas.
Uma dessas curiosidades que adornam ainda mais a história do retorno da campeã: Joint é treinada por Samantha Stosur, ex-número 4 do mundo, que venceu Williams na final do US Open 2011. Stosur também venceu nas duplas as irmãs Williams na final de Wimbledon em 2009. A australiana o fez ao lado de sua compatriota Rennae Stubbs, que este mês voltou a ser a técnica de sua amiga Serena.





