MADRID – No tênis, o talento é o bilhete de entrada, mas sem disciplina é impossível alcançar o sucesso. Juan Carlos Ferrero, o homem por trás da ascensão precoce de Carlos Alcaraz, fez uma reflexão que analisa com enorme precisão a diferença entre ser um grande tenista e se tornar uma lenda. Para Ferrero, o sucesso não é um estado de espírito, mas um hábito que precisa ser alimentado de diferentes maneiras, sobretudo quando a paixão vacila.
A tese do ex-treinador de Alcaraz é clara: a motivação é um recurso finito. No início de uma carreira, a adrenalina dos primeiros Grand Slams e a ascensão no ranking funcionam como um combustível inesgotável. Tudo é novo, tudo te impulsiona. No entanto, o circuito profissional não deixa de ser um triturador. E depois de vários anos, sobretudo quando se está no topo, o brilho da novidade começa a se apagar. É aí, quando tudo se torna rotineiro, que muitos estagnam, que muitos param de crescer.
“Alcaraz pode ser um dos melhores da história. Em termos de resultados, ele já está quebrando muitos recordes. Ele tem o tênis, o físico e a capacidade mental. A única coisa que poderia freá-lo seria perder a motivação, algo que pode acontecer quando se começa tão jovem. Sempre lhe disse que, quando a motivação acabar, a disciplina tem que começar”, disse Ferrero em uma entrevista publicada nesta sexta-feira pelo El País. “Enquanto continuar se divertindo e jogando como faz agora, terá uma carreira muito longa”.
É o mesmo discurso que Ferrero proferiu há algumas semanas, quando visitou o estúdio da La Sexta, uma das principais emissoras de televisão da Espanha. “Quando a motivação desaparece, a disciplina tem que aparecer”, destacou naquela entrevista, logo após o apresentador perguntar se Alcaraz chegaria a ser o tenista com mais títulos de Grand Slam da história.
“Eu adoraria”, respondeu Ferrero imediatamente. “Sempre achei e tentei convencê-lo de que ele poderia ser um dos melhores da história se realmente se esforçasse bastante e, quando a motivação desaparecer, que a disciplina apareça com força. Isso é muito importante.”
O ex-número um e campeão de Roland Garros em 2003 aprofundou essa reflexão. “No início, quando você vive tudo de novo, a motivação está aqui (e coloca a mão no alto), seu primeiro Grand Slam, seu segundo, seu primeiro ano… Mas quando você já está no circuito há três ou quatro anos, a disciplina precisa aparecer. Saber realmente para onde você precisa ir, conhecer-se perfeitamente, trabalhar, trabalhar e trabalhar nos momentos em que você precisa trabalhar para realmente continuar nesse nível que você deseja quando a motivação diminui um pouco”.

E, nesse momento, ele citou o exemplo de Djokovic, o recordista, o tenista mais bem-sucedido de todos os tempos segundo as estatísticas, o jogador que continua lutando contra os melhores do mundo apesar de estar prestes a completar 39 anos. Em um tênis dominado pelos jovens Alcaraz e Sinner, o sérvio é a resistência. “Novak, por exemplo, tem se saído muito bem. Se você perguntar ao Novak, ele não vai estar tão motivado agora quanto quando tinha 23 ou 24 anos, mas a disciplina que ele demonstra nos torneios, a forma como cuida de si mesmo, a maneira de fazer as coisas, a forma de treinar, acho que fica muito claro o que é preciso fazer”.
“Djokovic e Federer eram tecnicamente melhores que Nadal”
Nesse ponto da entrevista à La Sexta, Ferrero se rendeu a Djokovic e depois apresentou sua visão sobre o Big Three. Ele destacou a arte de Roger Federer em criar jogadas, a resistência de Djokovic e a capacidade de Rafael Nadal de se adaptar ao ambiente.
“Sou fã do Djokovic. Adoro, em primeiro lugar, a maneira como ele joga; ele bate na bola de forma tão limpa que fico boquiaberto sempre que o vejo. Em termos de números, ele é o melhor, embora isso seja uma questão de gosto. Pessoalmente, sempre gostei mais do Roger, pelo seu estilo, pela maneira como ele bate na bola, de criar jogadas; para mim, ele é um criador de jogadas. Novak é mais consistente, mais resistente, não tem aquele dinamismo que o Roger tinha, que em uma mesma jogada fazia um drop shot, depois um lob, subia na rede, ficava atrás, defendia e, no final, atacava. Novak é mais resistente, aproveita a velocidade do adversário e depois vira o jogo na quadra, te castiga, te domina e te faz correr de um lado para o outro”, explicou Ferrero antes de entrar no “território Nadal”.
“Djokovic e Federer eram tecnicamente melhores que Nadal. Roger com certeza, e eu diria que Novak também batia na bola com mais precisão que o Rafa. Mas o Rafa tinha uma capacidade impressionante de se adaptar ao ambiente. Se ele chegasse a pensar que era um pouco pior que os outros em termos técnicos, compensava isso com essa mentalidade. E isso também o ajudou. Muitas vezes as lesões não o pouparam, mas fisicamente ele era um verdadeiro animal; acho que isso o ajudou muito a compensar as deficiências”.
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