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Medvedev, Rublev, Tsitsipas e a ATP: o tênis que vive em outra realidade

El e-mail de la ATP pidiendo el pago de 5.000 euros para salir de una zona de guerra / CAPTURA
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Qual é o valor necessário além do que já se tem quando você é multimilionário? Até que ponto faz sentido seguir acumulando? Essas perguntas valem para o grego Stefanos Tsitsipas, mas também para alguns outros jogadores. E para a ATP.

Os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel ao Irã e os ataques iranianos a diversos países provaram, mais uma vez, que o tênis profissional vive em uma bolha de ilusão, muitas vezes insensível e elitista.

Como explicar, então, a proposta feita pela ATP aos participantes do Challenger de Fujairah? Nós vamos tirar vocês dos Emirados Árabes Unidos, país sob ataque iraniano, se cada um pagar 5.000 euros pelo voo.

A proposta foi um insulto fundamentado numa profunda insensibilidade (ou ignorância?) em relação à vida daqueles que não fazem parte da elite do tênis. Os torneios Challenger de Fujairah I e Fujairah II, cancelados, iriam distribuir, cada um, um total de 50.000 dólares em prêmios.

Nem sequer o prêmio para o campeão teria sido suficiente para cobrir esses 5.000 euros. E nenhum desses jogadores, quando fazem as contas no final do ano, tem 5.000 euros sobrando.

A PTPA (Associação de Jogadores Profissionais de Tênis) entrou em ação, se oferecendo para reembolsar metade do valor das passagens (5.000 euros por um voo só de ida para Milão, com escala no Egito) e exigiu que a ATP arcasse com o restante.

No final, a ATP anunciou que iria retirar seus jogadores da zona de conflito sem qualquer custo. O bielorrusso Ilya Ivashka, número 701 do ranking mundial da ATP, considerou que esse era um “grande gesto” mas o que é realmente grande é a falta de critério, sensibilidade e conexão com a realidade daqueles que cobrariam 5.000 euros dos jogadores para retirá-los de uma zona de guerra.

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Sensibilidade e conexão com a realidade também não parece que sejam o forte de jogadores como Daniil Medvedev e Andrei Rublev. Embora milionários e bem-sucedidos, ninguém os ouviu se preocupar com a situação de seus colegas de trabalho que estavam presos em Fujairah, a pouco mais de uma hora de Dubai.

Daniil Medvedev
Daniil Medvedev destrói uma de suas raquetes após perder na primeira rodada do US Open.

Ambos foram de carro de Dubai até Omã, passando bem perto de Fujairah, numa viagem nada tranquila, para depois embarcar num jato privado que os tirou da região, algo que foi bem mais difícil para o finlandês Harri Heliovaara: ele foi com sua esposa e filhos até a fronteira com Omã, mas não conseguiu atravessar, teve que voltar após horas de negociações e finalmente arranjou um voo que partiu de Dubai.

Tudo isso acontecia justamente quando a ATP sugeria cobrar 5.000 euros daqueles que economizam cada dólar para continuar vivendo o sonho de ser tenista.

E se Medvedev, Rublev e a ATP tivessem juntado forças pensando em outros tenistas — e suas equipes — em vez de optarem pelo “salve-se quem puder”? Que belo gesto teria sido. Que gesto humano teria sido.

No entanto, o tênis profissional tem se tornado cada vez menos humano. Como Andre Agassi afirmou recentemente, alguns jogadores são “tratados hoje quase como empresas”. E as empresas não têm alma.

Alma, aquilo que Tsitsipas sempre exibia ou tentava exibir (ou vender?). Quando surgiu no circuito, o grego foi uma surpresa revigorante. Não só pelo seu tênis, que no seu melhor nível é um deleite para os olhos, mas também pelo seu apreço pela fotografia, pela filosofia e pela reflexão, às vezes com um toque de autoflagelação, sem fim. Ali estava alguém diferente, alguém que enxergava além das vitórias e derrotas, dos troféus e dos cheques.

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Ou talvez não, talvez tudo tenha sido uma fantasia. Que um multimilionário como Tsitsipas, que pode viver o resto da vida sem trabalhar e garantir o mesmo para seus filhos, netos e bisnetos, diga que o dinheiro é um fator na hora de decidir se joga ou não na América do Sul é o oposto do que ele dizia ser, ou do que ele vendia ser.

Será que algumas centenas de milhares de dólares a mais justificam jogar sempre nos mesmos lugares e não descobrir esse mundo que Tsitsipas diz querer abraçar e explorar? Será que o grego não considera o tênis profissional um privilégio, como o feito de ter chegado ao lugar que milhares e milhares aspiram, mas acabam fracassando?

Quando você é privilegiado, a ousadia é sempre possível, e tem um custo muito baixo.

Se Tsitsipas ainda não pisou no Rio de Janeiro, em Buenos Aires e em Santiago do Chile, é porque não quis, pois teve inúmeras ofertas de alto nível, como foi confirmado pela CLAY. Será que era menos grana que os sheiks árabes lhe ofereciam? Com certeza. O dinheiro move o mundo, mas será que também move Tsitsipas? Ele não era “diferente”?

Dia 21 de fevereiro, o grego publicou no Twitter: «Lembrar-se de algo vergonhoso que você fez há 10 anos… pouco antes de adormecer».

Não deveriam se passar dez anos para que Tsitsipàs acordasse.

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