A mágoa pelo repentino término de sua parceria com Carlos Alcaraz começa a diminuir, diz Juan Carlos Ferrero, que olha para o futuro e não descarta nenhuma possibilidade: quem sabe ele um dia treine Jannik Sinner. Ou talvez volte a trabalhar com o próprio Alcaraz.
“As portas não têm por que ficar fechadas de vez, não é? Da mesma forma que eu poderia voltar com Carlos em algum momento, quem sabe, também poderia (…) ser com Jannik”, disse Ferrero durante uma entrevista por telefone à CLAY, do Bahrein, reproduzida também pela RG Media.
Ex-número um do mundo e campeão de Roland Garros e da Copa Davis, Ferrero falou na entrevista sobre seu novo papel como treinador de uma jovem promessa do golfe espanhol, Ángel Ayora, explicou questões ainda não totalmente claras sobre sua separação com Alcaraz e comentou sobre o trabalho que Samuel López está realizando como novo técnico do número um do mundo.
E o que será que vai acontecer quando você voltar a se encontrar frente a frente com Alcaraz?, CLAY perguntou a Ferrero.
“Esse vai ser um momento difícil, complicado (…). O normal seria eu ter voltado ao circuito com outro jogador e, obviamente, vê-lo de outra forma, certo? Como um adversário, não é? do jogador que eu possa treinar”.
Ferrero revelou que recebeu quatro propostas para treinar jogadores “do top 20”, três deles homens, mas que recusou porque ainda não acha que está pronto. E lá na frente, essa possibilidade de que possa haver um “Alcaraz + Ferrero, parte dois”.
“Sim… Sim, claro, claro que sim! No final das contas, acho que fechar as portas definitivamente não é inteligente, nem positivo, muito menos é o que sinto neste momento”.
Entrevista com Juan Carlos Ferrero
– Você está no Bahrein. Você já esteve aí na época em que era tenista?
– Não, não, não, não. Estive em Dubai, Doha, todos esses lugares, mas nunca no Bahrein.
– Parece então que o golfe está abrindo novos horizontes para você…
– Parece que sim!
– Você falou que os golfistas treinam muito, que passam muito tempo treinando. Eles treinam mais do que os tenistas? Qual é a diferença?
– Como o aspecto físico não é tão importante, eles passam mais tempo na prática. Um dia normal de Ángel, quando não está em competição, pode ser das 10h às 18h no campo de golfe, entre praticar tacadas, jogar alguns buracos, almoçar, voltar a treinar, trabalhar um pouco o físico… O tênis é um pouco mais específico, você treina duas horas, duas horas e meia, três horas com muito trabalho físico, e vai embora.
– Está gostando desses primeiros dias trabalhando no mundo do golfe?
– Estou me integrando com todos os jogadores do circuito, observando um pouco como funciona toda a dinâmica, estudando como me encaixar com Ángel para tentarmos, entre seu técnico, seu time e eu, colocá-lo no caminho certo e fazer com que ele consiga mostrar todo o seu talento.
– Você cuida mais do lado mental do Ayora, um trabalho mais restrito em comparação com o que fazia com Alcaraz.
– Sim, claro, com Carlos fui seu treinador a nível técnico e tático. Aqui, a nível técnico e tático, não tenho nenhuma influência. Estou mais focado na questão de como competir, como lidar com os momentos difíceis, como administrar a frustração, como controlar um pouco a ousadia em campo, o tema da linguagem corporal. Em como competir com 100% do seu potencial para aproveitar tudo o que existe dentro dele.
– Vai ser um ano para testar ou pensa em uma parceria de longo prazo?
– Por enquanto, combinamos no máximo oito torneios este ano. Os jogadores de golfe jogam muito, ele vai participar de cerca de 30 torneios no ano. A ideia é estar sempre em contato com ele quando eu não estiver presente nos torneios e acompanhá-lo nos que considerarmos que seja bom eu estar presente.
– Você acha que é possível conciliar isso com treinar alguém no tênis ou este ano você vai pegar mais leve e se dedicar só ao golfe?
– Sim, é possível conciliar, mas minha ideia é pegar mais leve. Recebi algumas ofertas que não funcionaram, mas não funcionaram porque ainda não tenho vontade de voltar às quadras, ao mundo do tênis. Preciso de um tempinho para descansar.
– Você tem três filhos, qual é a idade deles?
– Onze, oito e cinco.
– Bom, é um excelente momento para passar mais tempo com eles, não é?
– Claro que sim, claro. Afinal, dois deles já competem nos esportes, então eles também estão ansiosos para que eu esteja lá, vivendo um pouco a experiência que eles estão vivendo.
– Quais esportes eles praticam?
– Minha filha pratica ginástica artística e meu filho joga tênis e futebol. O mais novo, que tem 5 anos, está começando a jogar golfe, praticar judô e um pouco de tudo, ou seja, ainda não escolheu nada.

– Muito esporte! E você comentou que recebeu quatro ofertas de jogadores para treiná-los. Estamos falando de homens e mulheres?
– Principalmente de homens, mas também de algumas mulheres.
– Jogadores de ponta, do top ten, ou eram projetos a serem desenvolvidos?
– Eu diria que foram os dois, mas entre os 20 primeiros.
– E por que você disse não?
– Acho que é natural, não? Depois de estar com Carlos, um jogador desse nível, é um pouco difícil achar motivação agora.
– Você ficou surpreso com o alvoroço gerado pela sua separação com Carlos? Não me lembro de uma história com tanta repercussão por causa da separação de um treinador e seu atleta.
– Lá fora você não se dá conta, mas na Espanha foi realmente um grande choque. Sinto muito o carinho de tantas pessoas que conhecem o trabalho que fizemos com Carlos e o time. Fico feliz com isso e, obviamente, chateado com todo o resto.
– Você comentou que conversou com Alcaraz e que ficaram bem. Poderia compartilhar o que falaram?
– Ele me expressou sua gratidão, e eu compartilhei um pouco do meu sentimento em relação a tudo o que aconteceu e o que senti durante todo o tempo em que trabalhei com ele. A verdade é que não nos encontramos desde o ocorrido.
– Alcaraz conseguiu entender como você se sentia depois do que aconteceu? Ou não, ou rolou uma discussão?
– Ele toma as decisões junto com toda a equipe, acho que ele sempre soube o que estava acontecendo.
– Tem uma coisa que chamou bastante a atenção nesse mundo que funciona em grande parte através das redes sociais. Alcaraz postou nas redes sociais uma série de fotos refletindo “o que realmente foi importante em 2025” e você não aparece em nenhuma delas. Você ficou surpreso com isso, achou normal?
– Sim, um pouco. É claro que me surpreendeu, porque no final das contas eu fiz parte do jogo em 2025. Acredito que eles já estavam pensando um pouco no futuro e não queriam mais me associar a absolutamente nada. Uma vez que a relação foi rompida, no final das contas é uma decisão do time, não só dele. Pensam, agem, executam e pronto. Não é preciso pensar demais se eles decidiram que seria assim. Obviamente, eu gostaria que tivesse sido diferente, mas, no final, temos que respeitar as opiniões dos outros.
– Essas fotos em que você foi esquecido foram publicadas depois da conversa que você teve com Alcaraz.
– Sim, com certeza.
– Você disse que houve uma conversa sobre o contrato que acabou com tudo, mudou tudo. Não se tratava de dinheiro, você também disse, mas de uma questão de certo ou errado. Era algo inegociável ou foi uma questão mais filosófica, do tipo “cheguei ao meu limite”?
– Não vou entrar em muitos detalhes. Afinal, são assuntos internos sobre os quais não se chegou a um acordo em alguns pontos de um contrato com novas condições. Eles pensavam de uma maneira, eu de outra. E, no final, não houve convergência entre as duas partes e não se chegou a um acordo para continuar. Não há mais nada a dizer. Evidentemente, gostaríamos de ter terminado de outra forma, já tínhamos estudado a pré-temporada, isto foi algo que aconteceu de surpresa. Eu não esperava certas alterações em alguns aspetos, e no final elas ocorreram. Não conseguimos chegar a um acordo e pronto. É preciso seguir em frente e respeitar também as outras partes.
– Imagino que, por ser um contrato que era renovado anualmente, não houve indenização ou compensação pela sua saída.
– É isso mesmo.
– Outra coisa que chamou a atenção foi uma publicação sua nas redes sociais em que você usou uma música com uma letra muito significativa, falando sobre se levantar, não desistir. Estamos interpretando demais ou essa música naquela publicação específica era uma mensagem?
– Não, não, na verdade não. Já expliquei em algumas entrevistas que já houve um tempo para assimilar, que foi tudo muito difícil, e que em determinado momento é preciso levantar e seguir em frente. As pessoas especulam muito e imaginam muita coisa, mas, na realidade, precisei de um tempo e, a partir de agora, já que se passou um mês e pouco, é preciso começar a avançar e buscar novos desafios e novas ilusões que realmente motivem, façam você trabalhar bem e façam você feliz. Simples assim.
– Após um trauma ou um choque muito forte, passamos por várias fases. A fase do choque, a da raiva, a do luto, a da aceitação… Em que fase você se encontra?
– Neste momento, estou saindo do luto. Depois de um mês, é claro que já aceitei e estou pensando em outros assuntos. Não estou acompanhando tanto o Aberto da Austrália. Fico sabendo dos resultados, mas não estou vendo os jogos. No final, dói um pouco, não é? Ver todos os colegas no box e sentir saudades de tantas coisas que vivemos juntos. As recordações estão à flor da pele e é sempre um pouco difícil.
– Eu imagino que você também ficará emocionado no dia em que voltar a pisar em um torneio, que é o seu universo, e encontrar o time do Alcaraz e o próprio Alcaraz.
– Sim, esse momento vai ser difícil, complicado. Mas vai ser um novo começo para continuar a normalizar a relação. Talvez o veja em Madrid por ir assistir ao torneio e não estar (como treinador) com ninguém, mas o mais normal seria já ter voltado ao circuito com outro jogador e ter uma visão diferente, como um adversário do meu jogador.
– Você sempre passou uma imagem de seriedade, contido em suas emoções, e o que se viu nessas semanas foi um Ferrero muito próximo, muito emotivo e sensível.
– Na verdade, sou bastante emotivo e, embora seja uma pessoa disciplinada, que acredita em um determinado tipo de trabalho, também tenho meus sentimentos. Quando você passa tanto tempo com outras pessoas, acaba mostrando um pouco o seu lado mais sensível.

– Você trocou alguma mensagem com Samuel López?
– Por enquanto, tenho me mantido um pouco afastado de tudo. Vou me encontrar com Samuel quando ele voltar. É claro que, se ele ganhar o torneio, vou parabenizá-lo, sem dúvida. Assim como Carlos, mas, por enquanto, não estou falando com ninguém.
– Imagino que, depois da separação, você tenha conversado com López, uma espécie de transferência de comando.
– Sim, falei com Samuel, é verdade. Falamos de muitas coisas, obviamente do trabalho, do que seria feito agora. Dali em diante, não falei mais nada. Ele é uma pessoa com experiência suficiente para saber o que deveria ser feito.
– Você entregou o jogador, de certa forma?
– Pode-se dizer que sim. Decisões foram tomadas, ele continuou e eu não. Cada um segue seu caminho, continuamos sendo sócios na nossa academia e a relação tem que continuar. No início, tudo é mais difícil, porque você se afasta, mas com o tempo esperamos que tudo volte ao normal.
– Você achou certo que López continuasse como técnico de Alcaraz?
– Bem, fui eu quem o incentivou a continuar, depois que ele me disse que essa possibilidade tinha sido cogitada pelo círculo de Carlos. Fui o primeiro a dizer que sim.
– Sua declaração de que no futuro poderia treinar Sinner, o maior rival de Alcaraz, causou certo alvoroço. O que você quis dizer com isso?
– Eu quis dizer que as portas não precisam ser fechadas de forma categórica, certo? Da mesma forma que eu poderia voltar a trabalhar com Carlos em algum momento, quem sabe. Da mesma forma que poderia treinar qualquer jogador do circuito, um deles poderia ser Jannik (Sinner). Quero esclarecer que ninguém da equipe de Jannik entrou em contato comigo, embora seja verdade que me enviaram uma mensagem de parabéns pelo trabalho que havia sido feito e que lamentavam muito. Mas nada mais, no final das contas, nada mais.
– Pelo que entendi, você acredita que poderia voltar a treinar Alcaraz no futuro, que sente isso genuinamente, que ainda há muito tempo pela frente.
– Sim… Sim, claro, claro que sim! No final das contas, acho que fechar as portas definitivamente não é inteligente, nem positivo, muito menos é o que sinto neste momento.
– Você procurou ajuda psicológica nessas semanas ou foi uma superação solitária?
– Minha família, minha esposa. Acima de tudo, minha esposa, que viveu intensamente tudo o que aconteceu.





