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Fugindo da crueldade do tênis aos 25 anos: “Na quadra, já me chamaram de ‘macaca’” — entrevista com Destanee Aiava

Destanee Aiava
Destanee Aiava / SIMON SCHLUTER
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Destanee Aiava teve um Valentine’s Day que não vai esquecer. Em 14 de fevereiro de 2026, a tenista australiana descendente de samoanos anunciou que esta será sua última temporada como profissional, em um esporte cuja cultura ela definiu como “racista, misógina, homofóbica e hostil com qualquer pessoa que não se encaixe no seu padrão”.

“Na quadra, já me chamaram de ‘macaca’ e ‘transgênero’”, revelou Aiava — ex-número 147 do mundo e atualmente 320 — à CLAY, em uma entrevista também publicada pela RG Media.

Antes de internar seu namorado em um hospital às 3 da manhã, depois que ele contraiu um vírus durante o voo de volta para casa, a jogadora de 25 anos compartilhou um post com nove slides no Instagram, no qual revelou sua crescente frustração em relação ao trabalho e as razões por trás da decisão de se afastar do tênis: seu “namorado tóxico”.

“Todas (as jogadoras) falam mal umas das outras pelas costas. É isso que acaba criando esse ambiente hostil, porque tudo é falado pelas costas, mas depois elas dão um sorrisinho falso quando se cruzam”, disse a jogadora mais jovem das Ilhas do Pacífico a competir no quadro principal de um Grand Slam.

“Pessoalmente, prefiro usar esse tempo com as pessoas que são importantes para mim, em vez de ficar viajando pelo mundo e perdendo tempo”, disse Aiava, a primeira jogadora de origem samoana a competir no US Open, em entrevista à CLAY.

Entrevista com Destanee Aiava

Por que você resolveu se aposentar?

— Acho que nunca gostei de verdade desse esporte. A única coisa que me fazia gostar dele eram as coisas boas que o acompanhavam. E, para mim, pessoalmente, não vale a pena acordar todos os dias odiando meu trabalho e vivendo, no fundo, uma mentira. Muitas pessoas vêm falar comigo e dizem: “Você deve amar isso”. Honestamente, tem dias que eu gostaria de fazer qualquer outra coisa, menos bater numa bola na quadra de tênis.

 

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Você se referiu ao tênis como seu “namorado tóxico”. Por que escolheu usar essa metáfora, ainda mais no Valentine’s Day?

— A maneira como eu ia e voltava do tênis, lutando contra meus próprios demônios dentro desse esporte — querendo desistir ou continuar — me fez sentir que, mesmo em um relacionamento, todos têm seus altos e baixos com seu parceiro. Senti que era exatamente isso que eu estava vivendo: meu relacionamento com meu próprio trabalho. Era basicamente tóxico. Não tinha certeza se mais alguém entenderia isso, mas fico feliz que você tenha captado a analogia (risos).

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Como você gostaria de ser lembrada pelo seu “namorado tóxico”?

— Gostaria de ser lembrada pela sinceridade com que falei sobre minhas experiências. Espero inspirar outras pessoas que estão passando por uma situação parecida a seguirem o mesmo caminho e colocarem a si mesmas em primeiro lugar. Percebi que, independentemente de todas as coisas negativas que sejam ditas, no final das contas ninguém realmente se importa. Em uma semana, as pessoas vão esquecer tudo isso e eu continuarei sendo a mesma pessoa.

Em 2024, você representou a Austrália na United Cup e disse que foi uma experiência “estranha e hostil”. Como foi, de modo geral, sua experiência lá e no circuito?

— Todo mundo compete contra todo mundo, especialmente entre as mulheres. Sinto que não sabemos lidar com isso tão bem quanto os homens. Eles jogam uma partida, acontece qualquer coisa na quadra e, dez minutos depois, estão fazendo piadas juntos no vestiário. As mulheres não funcionam assim. A sensação era como se estivéssemos na escola.

Como foi sua experiência como tenista samoana-australiana?

— Ser uma mulher negra em um esporte predominantemente branco tem sido uma grande luta desde o primeiro dia. Não houve uma única vez em que eu tivesse sentido que pertencia a este esporte por causa da cor da minha pele. Vai ser sempre mais difícil para nós, essa é a realidade. Mesmo que não fosse mulher, continuaria a ser mais difícil por ser morena, asiática ou negra. O bullying online, os torcedores nas arquibancadas gritando coisas contra mim durante os jogos… são muitos os episódios que levaram ao meu anúncio de aposentadoria.

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Destanee Aiava
“Na quadra, já me chamaram de ‘macaco’ e ‘transgênero’”, disse Destanee Aiava à CLAY na entrevista.

No seu comunicado de aposentadoria, você escreveu que a cultura do tênis é “racista”, “misógina” e “homofóbica”.

— Recebi comentários online me chamando de “gorda”, “homem”. Ao ver os jogadores gays e como eles são tratados, é muito importante para mim defendê-los, porque vejo pessoalmente como eles são tratados no tênis. Não quis falar apenas por mim. Quis falar por todos aqueles que tiveram ou têm experiências muito semelhantes às minhas.

De que exemplos concretos de racismo você se lembra?

— Quando eu era criança, havia alguns pais super agressivos nos torneios que não pensavam duas vezes antes de gritar o que pensavam, me chamando de “homem” ou “macaco”.

Acontecia algo parecido nos vestiários?

— Não que eu me lembre. Tudo é falado pelas costas. É por isso que se cria um ambiente hostil: falam pelas suas costas, mas depois, quando cruzam com você, dão um sorrisinho falso. Sou muito sensível à energia e, na maioria das vezes, nesse ambiente, a energia era terrível.

O que a WTA poderia ter feito para que você continuasse jogando? Ou algum resultado nesta temporada que possa mudar sua decisão?

— Não acredito que alguém pudesse ter feito nada para mudar minha decisão. Ela não se baseou no que recebo quando perco, nem no barulho externo ou nos comentários de ódio. Não é isso. Simplesmente não me sinto mais realizada neste esporte. É muito solitário. É um esporte individual. É muito caro. Tudo isso me levou a querer explorar outras coisas e encontrar algo que realmente ame.

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